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PERSÉPOLIS: Uma vida em preto e branco

28/Janeiro/2008 · Deixe um comentário

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Marjane Satrapi nasceu no Irã nos anos 1960. Sua autobiografia poderia ser um vale de lágrimas – incluindo opressão política, perda da liberdade, exílio na adolescência e até mesmo morar na rua. Mas ela vê sua história por outro ângulo, na historinha em quadrinhos Persépolis – que agora é publicada no Brasil em volume único –, uma combinação de humor com indignação política e questionamentos emocionais.

 

Originalmente lançado no Brasil em quatro volumes – seguindo a edição francesa – em 2003, a publicação da história em quadrinhos em volume único é uma possibilidade de [re]descobrir esse grande trabalho – que ganhou diversos prêmios, como o de melhor HQ na Feira de Frankfurt. Persépolis também foi adaptado para o cinema [co-dirigido pela autora e por Vincent Paronnaud]. Além de premiado no Festival de Cannes, o longa, que foi escolhido para representar a França na disputa por uma vaga no Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, estréia no Brasil no primeiro semestre do ano que vem.

 

Logo nas primeiras páginas a escritora e ilustradora mostra o tom que vai acompanhar o leitor por todo o livro: uma mistura entre política e humor – um humor agridoce muitas vezes. A primeira ilustração mostra a pequena Marjane com 10 anos, em meio a Revolução Islâmica, emburrada, com a cabeça coberta com um véu, que logo se tornou obrigatório na escola, lhe trazendo alguns problemas graças à sua rebeldia.

 

Filha de pais progressistas, Marjane cresceu com uma liberdade incomum para as garotas de seu país. Sua mãe foi uma das mulheres que saiu às ruas para protestar contra o uso do véu – o pai a apoiava nisso.

 

Esse é apenas um dos episódios dessa vida narrados em Persépolis. O livro acompanha Marjane ao longo dos anos, seus problemas com o regime e seu crescimento pessoal – enfrentando dilemas de ser uma exilada num país estranho, as dúvidas freqüentes da adolescência entre outras coisas.

 

A história em quadrinho é claramente divida em duas partes. Na primeira, acompanhamos a visão de uma criança para um mundo em constante transformação. É um tom lúdico de quem vê, mas não entende, e, assim, as coisas mais escabrosas tomam contornos menos assustadores. A guerra, aos poucos, vai se tornando menos atroz – é a capacidade que o ser humano tem de se adaptar [e, às vezes, aceitar] a tudo.

 

Aos poucos, a pequena Marjane ganha mais consciência política – nesse processo, a figura de um tio ativista foi muito importante para ela. Aliás, ela se torna tão politizada, que viver no Irã passa ser um perigo, e os pais decidem enviá-la para Viena.

 

Irã em Viena

 

A segunda parte de Persépolis acompanha a protagonista vivendo na Áustria – onde a vida também não é tão fácil. Aqui, a narrativa ganha contornos ainda mais pessoais. O livro passa a falar de Marjane crescendo e tentando entender o mundo – em especial seu mundo interior. É um ato de coragem da autora se abrir de tal forma publicamente – não apenas nessa segunda parte, mas ao longo de toda a história em quadrinhos.

 

Em várias entrevistas, Marjane confessou que seus pais só ficaram sabendo de tudo o que ela passou em Viena quando leram o livro. São nessa parte que estão os momentos mais sentimentais e emocionantes de Persépolis.

 

Ela acabou voltando para o seu país natal, onde se formou em Belas Artes e, mais tarde, se mudou [por opção própria] para a França, onde até hoje trabalha como ilustradora. Sua autobiografia é uma das mais originais dos últimos tempos. Especialmente porque ela conta sua história usando não apenas palavras, mas também desenhos próprios.

 

Os traços da autora nesse livro são de uma simplicidade labutada – daquele tipo que parece fácil, mas só se alcança à custa de muito esforço. Por isso mesmo, há um equilíbrio entre discurso e forma – o livro não rouba as atenções para nenhum dos dois, nem as palavras nem as ilustrações.

 

Ao lado de livros como Lendo Lolita no Teerã, no qual uma professora universitária conta a sua experiência de ensinar literatura ocidental para suas alunas, Persépolis é uma janela para um mundo mal compreendido pelo restante do planeta – e, por isso mesmo, muitas vezes mal visto. No livro, a vida de Marjane é contada em preto e branco – mas com tantas aventuras, indagações, tristezas e alegrias, sabemos que é um preto e branco colorido.

 

Originalmente publicado em www.RevistaParadoxo.com , em 18/12/2007

 

Categorias: França · História em Quadrinhos · Irã · literatura

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