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A MENINA QUE ROUBAVA LIVROS: Acertando as contas com a Morte

7/Fevereiro/2008 · Deixe um comentário

ameninaqueroubavalivros-capa.jpgDe todos os narradores já convocados pela literatura para contar uma história, o que narra A Menina que Roubava Livros é um dos mais sinistros: a Morte, em pessoa. O escritor australiano Markus Zusak lhe dá voz, personalidade e até mesmo um coração para que Ela narre a vida de uma garota que roubava livros para acertar as contas com a vida e a morte.  

A Menina que Roubava Livros se encaixa naquela lacuna de literatura que é voltada tanto para jovens, quanto para adultos. Para o bem e para o mal. Enquanto existe a possibilidade de agradar os dois grupos, também há preconceito de ambos. O que não deveria ser o caso aqui.  

O romance, que tem o holocausto como pano-de-fundo, remete a Tudo Se Ilumina – que foi adaptado para os cinemas e lançado no Brasil como Uma Vida Iluminada. Há um quê de Vonnegut também, com as reviravoltas do destino. Já os comentários cínicos do narrador fazem lembrar o humor negro e inteligente da série de livros de Lemony Snicket. Enfim, é uma profusão de referências, e, ainda assim, Zusak consegue emergir com uma voz original. 

Liesel Meminger, a protagonista, rouba livros para acertar as contas com a morte, que lhe tomou seu irmão. Encontrou com a própria mais duas vezes e ainda assim sobreviveu. Por isso a Morte ficou impressionada, a ponto de contar a história da garota. A época é a Segunda Guerra Mundial, o local é uma cidade próxima a Munique. Os tempos são difíceis:  infância miserável com pouca comida e sem conforto, o que obriga a menina a roubar mais do que livros – referência aos pequenos órfãos de Charles Dickens, em especial Oliver Twist. 

O primeiro livro que Liesel rouba é um exemplo do humor que Zusak busca para atenuar o peso da história: O Manual do Coveiro, cujo subtítulo é Guia em Doze Passos Para o Sucesso Como Coveiro. Ela o encontra no cemitério depois do enterro de seu irmão, e se torna seu único elo com o passado, que inclui uma mãe que a abandonou em uma casa de família, e o pai que nunca conheceu. 

A casa de Hans e Rosa Hubermann, família que acolheu Liesel, se torna o refúgio da garota. Ele assume facilmente a figura de um pai amável e protetor, enquanto a mulher não faz o papel típico de mãe, embora tenha um jeito peculiar de amar a menina, a quem sempre chama de ‘porca imunda’ ou algo similar.  

Nessa casa, ela vai fazer diversos amigos, entre vizinhos e outros moradores das redondezas. Mas nenhum será tão marcante quanto Max Vanderburg, um judeu que tenta escapar dos nazistas. É curioso que nessa missão, Mein Kampf, o livro escrito por Hitler, tenha um papel tão fundamental – tanto para ele quanto para Liesel, que é Luterana e não corre risco de ser mandada para um campo de concentração. 

Suzak cria uma narradora convincente e sedutora – que tenta muitas vezes fazer o leitor se esquecer de quem ela é. “Decididamente, eu sei ser animada, sei ser amável. Agradável. Afável. E esses são apenas os As”, descreve-se a Morte. Mas a melhor parte de sua narrativa está com a protagonista e sua paixão por livros.  

A Menina Que Roubava Livros acerta quanto mais foge dos solilóquios da ‘ceifadora de almas’. São nesses momentos que Suzak cria imagens e acontecimentos mais instigantes e poderosos – como uma fogueira de livros, que faz lembrar o tema de Fahenreit 451, a marcha de judeus para Dachau, ou os bombardeios. Porém, no fim, é quase impossível reprimir uma história que mostra uma paixão tão honesta por algo tão nobre quanto os livros.

Originalmente publicada em www.RevistaParadoxo.com em 29/05/2007

Categorias: australiana · literatura

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