“Era um trem diurno, mas estávamos no inverno”, começa o russo Leonid Tsípkin em seu romance “Verão em Baden-Baden”, “bem no auge do inverno.” Este é um romance dostoievskiano sobre Dostoiévski – como “O Mestre” é sobre Henry James, “As Horas”, sobre Virginia Woolf e em especial “O Mestre de Petesburgo”, também sobre Dostoiévski, só para ficar com alguns dos mais recentes.
Tsípkin era um médico infectologista apaixonado por literatura, que nunca viu essa sua pequena obra-prima publicada, originalmente lançada num semanário para imigrantes russos nos Estados Unidos – poucos dias antes da morte do autor, em 1982.
Em “Verão em Baden-Baden”, Tsípkin se coloca como autor e personagem – ao lado de Dostoiévski personagem. É um escritor em busca de outro e, nesse processo, emerge como uma outra pessoa. Na introdução da edição brasileira, Susan Sontag diz que “[nada] é inventado. Tudo é inventado. A ação que serve de moldura é a viagem do narrador rumo aos locais onde se passa a vida de Dostoiévski e seus romances (como logo compreendemos) rumo ao livro que temos nas mãos. ‘Verão em Baden-Baden’ pertence a um raro e sofisticadamente ambicioso gênero de romance: ao recontar a vida real de uma pessoa de talento de uma outra época, ele entrelaça essa história com uma história do presente, das árduas reflexões do romancista em seu esforço de penetrar mais fundo na vida interior de uma personalidade cujo destino era tornar-se não só histórica mas monumental”.
Nessa recriação/descoberta dessa personagem real e monumental, Tsípkin se encontra como escritor – mais talvez do que como ser humano. Seu estilo – embora ecoe temas, motivos e sons de Dostoiévski – é próprio. Ele escreve em parágrafos longos, que crescem num jorro contínuo. Isso faz lembrar Saramago – mas é praticamente impossível que houvesse essa influência. Há também descrições fortemente visuais, imagens oníricas e realistas.
Algumas passagens conhecidas da vida de Dostoiévski são recriadas com força dramática. Uma das melhores passagens – que acontece duas vezes – é quando o autor de “Recordação da Casa dos Mortos” sobe numa cadeira para poder observar melhor uma pintura em dois museus. O motivo pode ser o mesmo – mas nas duas vezes que a cena acontece são para efeitos dramáticos diferentes. Outro é uma querela entre Dostoiévski e Turguêniev, autor de “Pais e Filhos”. A cena é sensacional, à medida que acontece num crescendo até chegar em seu clímax. Já Dostoiévski no leito de morte, no quarto final do romance, é tocante ao mesmo tempo em que Tsípkin explora o seu aguçado senso de criação visual.
“Verão em Baden-Baden” explora as possibilidades da arte como forma de redenção – de Dostoiévski, de Tsípkin, do leitor –, a arte como forma de expressão primária, a arte que reflete acontecimentos da vida, e os transforma. Há dois contrastes fortes: o verão de Dostoiévski e o inverno de Tsípkin. Dois pólos complementares, duas forças que encontram um equilíbrio.
2 respostas Até agora ↓
Paulo Silveira // 17/Abril/2008 às 7:30 am
Vou ler! Parece obrigatorio para os fãs dos russos. Obrigado pelo excelente review…
alyssonoliveira // 18/Abril/2008 às 4:46 am
Oi, Paulo.
Obrigado pelo comentário. Vale à pena ler esse livro, que tem tudo para agradar quem gosta da boa literatura – em especial da russa.