Lóri e Ulisses se amam. Mas não estão prontos para ficar juntos. Cada um tem o seu tempo para processar um sentimento, uma relação, uma emoção. “Esperarei nem que sejam anos que você também tenha corpo-alma para amar”, diz ele. Essa eterna busca do outro é que move as páginas “Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres”, de Clarice Lispector.
Esse é um romance de formação – de formação de personagens, de formação de leitores, de formação de almas, como boa parte da obra da escritora. São dois personagens em busca de si e de outras pessoas e sentimentos que o complementem, ou, por assim dizer, algo que os eleve a um outro patamar na escala evolutiva. Mas, Lóri e Ulisses estão em níveis diferentes. Aparentemente, ele está um pouco acima dela. E, possivelmente por isso mesmo, ele tem o altruísmo de a esperar – a isso muita gente chama de amor.
“[Faz] de conta que vivia e não que estivesse morrendo pois viver afinal não passava de se aproximar cada vez mais da morte” é dito. Viver, no universo de Clarice, é um processo doloroso, mas nem por isso ruim, é um aprendizado afinal, e cada um o faz da sua forma. “[O] mundo é uma festa que termina em morte e em cheiro de cravo murcho na lapela.” Mas enquanto nada disso chega, viver e aprender são a melhor saída.
Em sua jornada, Ulisses conta que uma das coisas que aprendeu ‘é que se deve viver apesar de. Apesar de, se deve comer. Apesar de, se deve amar. Apesar de, se deve morrer. Inclusive, muitas vezes é o próprio apesar de que nos empurra para frente’. Assim, os personagens insistem em viver e amar, apesar de. Lóri não faz idéia de como se entregar plenamente, está sempre em dúvida de seus sentimentos e atos. Por isso mesmo, é uma personagem interessante. Professorinha do interior, agora vive na cidade grande, onde tenta manter seus mesmos padrões, acrescentando um novo modus operandi. Compra roupinhas para os seus alunos, os agrada – mas sente um nó na garganta quando pensa em liga para Ulisses.
Ela, e principalmente o leitor, perceberá que conquistar algo é uma jornada árdua. Na abertura do romance “A Paixão Segundo G. H”, a mesma autora lembra os ‘possíveis leitores’ de que pessoas com a alma já formada são aquelas ‘que sabem que a aproximação, do que quer que seja, se faz gradualmente e penosamente – atravessando inclusive o oposto daquilo de que quer se aproximar’ – talvez para ver se vale a pena o investimento de tempo e energia. Mas outro artista tão sábio quanto Clarice, chamado Fernando Pessoa, disse que ‘tudo vale a pena se a alma não é pequena’. E se há algo que os personagens de “Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres” não têm é uma alma pequena. Por isso, para eles, vale toda a energia investida em qualquer coisa – nem que seja apenas ‘viver, apesar de’. “A tragédia de viver existe sim e nós a sentimos. Mas isso não impede que tenhamos uma profunda aproximação da alegria com essa mesma vida”.
Os nomes Loreley – apelidada Lóri – e Ulisses vêm de lendas tão antigas quanto o tempo. O dela é do folclore alemão, e era uma mulher que seduzia pescadores e estes se atiravam no mar, morrendo vítimas do encanto da moça. Já o protagonista tem o mesmo nome do personagem grego que atravessa o mar e resiste ao canto das sereias. Duas tradições que envolvem água, sedução e engano. “Aí estava o mar, a mais inteligível das existências não-humanas. E ali estava a mulher, de pé, o mais inteligível dos seres vivos. Como o ser humano fizera um dia uma pergunta sobre si mesmo, tornara o mais inteligível dos seres onde circulava sangue. Ele e o mar.”
Ao longo de praticamente quarenta anos desde sua primeira publicação, “Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres” se tornou uma das obras fundamentais no conjunto de Clarice – um dos livros mais amados também. Isso talvez se deva porque o romance se comunica tão claramente com as pessoas por causa da jornada de nossa evolução. É um livro que não traz respostas – ainda bem, pois estas seriam limitadoras – nem levanta perguntas, mas explora a dura jornada da existência.
“‘Não entender’ era tão vasto que ultrapassava qualquer entender. Entender era sempre limitado”, diz Clarice num momento de divagação de Lóri. Por isso mesmo este romance é para ser não-compreendido – o que é diferente de incompreendido – é para ser sentido, em lugar de apenas lido. É, no fim, uma longa jornada, na qual cada um segue em sua própria velocidade, seja de mãos dadas com Lóri, com Ulisses, com Clarice ou com outra pessoa – ou até mesmo sozinho – mas um caminho necessário.
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