APPOINTMENT IN SAMARRA: An Appointment nobody should miss

Rarely does a writer debut with such a grace and so close to the perfect as happened to John O’Hara and his “Appointment in Samarra”. Many authors are dazzled with the possibilities and open many doors that they are not able to either enter or close. O’Hara is different. He is assured of what he wants of his characters and his prose, therefore his writing reads like an experienced writer who leaves readers breathless.

“Appointment in Samarra” begins with an epigraph from Somerset Maugham. And the narrative follows Julian English, a WASP who is atop the social leader in Gibbsville, PA. At a Christmas party he throws a drink in the face of an important Catholic businessman and this is just the beginning of his downward spiral.

While Mr English is going down, another characters are going up. It is very interesting the parallels the writer traces in his narrative showing how one’s decadence is another’s ascendance. Luther Fliegler’s life is the counterpoint to English’s.

O’Hara’s dialogue have an important part in his prose. His words are sharp and not a single one is useless. The use of colloquial language only enhances that. His characters’ lines are complemented by detailed descriptions that favor to create the whole scene.

Many compare O’Hara to other writers from the same period like Fitzgerald, it turns out that O’Hara is not that famous- what is a shame. Because, like Fran Leibowitz said, he is “the real F. Scott Fitzgerald.” O’Hara’s prose has much more depth and less romantic characters that Fitzgerald. Moreover he reads more smoothly and he talks more candid about issues like decadence and sex. In Fitzgerald’s world the prose is dreamy. Nothing seems to be very real. On the other hand, O’Hara is very down-to-earth.

“Appointment in Samarra” is a book that is very likely to please readers who like complex narratives written with an assured hand. The Vintage edition brings a very helpful introduction written by John Updike, that in the end illuminate many points.

AUSTERLITZ: Quando a intersecção entre as lembranças e a escrita é iluminada por fotografias

Em uma de suas últimas entrevistas, publicada postumamente no jornal britânico “The Guardian” em dezembro de 2001, o escritor alemão W. G. Sebald diz que a formação psicológica de uma pessoa ‘é tal que você é inclinado a olhar para trás por cima de seus ombros. Memória, mesmo que você a reprima, voltará e dará forma à sua vida. Sem memórias não haveria nenhuma escrita’. Em seu último romance, “Austerlitz”, o autor explora exatamente essa intersecção: quando a escrita busca na memória – de quem escreve e de quem lê – os fragmentos para se compor uma narrativa.

 

“Austerlitz” pode ser visto como uma combinação entre filme “Morangos Silvestres”, de Ingmar Bergman, e “Em Busca do Tempo Perdido”, de Proust. Detalhes são o estopim para uma enxurrada de lembranças do personagem-título. Mas não apenas isso, este é também um romance sobre a busca de uma identidade. O protagonista foi mandado para Inglaterra pelos pais, quando a Tchecoslováquia foi invadida por alemães quando ele tinha apenas 4 anos.

 

Ele cresceu como Dafydd Elias, pensando ser filho de um pastor protestante no País de Gales. Mais tarde, porém, descobre que seu nome é Jacques Austerlitz. Na escola, dizem que ele terá de usar esse nome em suas provas – mas os colegas não precisam saber, e os professores mesmo sabendo continuam a o chamar pelo nome pelo qual era conhecido. É uma identidade truncada, na qual um nome pode ter um peso maior do que o presente do personagem, por isso mesmo é importante a busca pela elucidação do passado – não esquecido, mas perdido no fundo da mente, e daí a importância das memórias, até aquelas das quais não temos ciência.

 

Sebald nasceu na Alemanha em 1944, e lecionou na Inglaterra até os anos de 1970 até 2001, quando sofreu um acidente de carro fatal, que acabou com uma das carreiras literárias mais promissoras dos últimos anos. “Austerlitz” havia sido publicado em inglês há poucos meses, e já recebia louros e o rótulo de obra-prima desde seu lançamento em alemão também em 2001. E outros grandes livros ter vindo.

 

Os livros de Sebald são uma combinação entre ficção, reconstituição histórica, reportagem e fotografias. Na mesma entrevista ao jornal inglês, ele disse que sempre se ‘interessou por fotografias, colecionando-as não sistematicamente, mas por acaso. Elas se perdem, e depois reaparecem’. Em “Austerlitz”, uma passagem, porém, parece dar uma explicação mais poética sobre o fascínio que as imagens impressas exerciam sobre o escritor. ‘No trabalho de fotógrafo, sempre me encantou o instante em que as sombras da realidade parecem surgir do nada sobre o papel em exposição, tal como recordações, disse Austerlitz, que nos ocorrem no meio da noite e que tornam a escurecer rapidamente caso se tente agarrá-las, à maneira de uma prova fotográfica deixada muito tempo no banho de revelação’.

 

É fascinante a forma como fotografias em preto-e-branco são utilizadas. Num primeiro momento, parecem surgir do nada como um respiro em meio aos parágrafos que podem durar centenas de páginas, já que não têm nenhuma legenda, apenas uma relação – nem sempre muito explícita – com o texto. Tentar decifrar esse diálogo – entre palavra e imagem – é um dos prazeres da leitura de Sebald.

 

Essas são imagens que transitam entre o bizarro ao poético – para algumas delas essa linha é tão tênue que é impossível classificar. Duas, por exemplo, mostram detalhes do cemitério de Tower Hamlets. Numa delas vê-se um anjo depredado sobre um túmulo e lê-se a inscrição “Until the day breaks and the shadows flee away” [“Até que o dia nasça e as sobras fujam”]. 

 

Mas esse pode ser  o prazer mais primário de Sebald, porque a leitura de seus romances vai acumulando camadas de compreensão. Os vivos e os mortos dialogam numa língua incompreensível às vezes, e deste espetáculo somos espectadores – não necessariamente passivos. “ Não me parece, disse Austerlitz, que compreendemos as leis que governam o retorno do passado, mas sinto cada vez mais como se o tempo não existisse em absoluto, somente diversos espaços que imbricam segundo uma estereometria superior, entre os quais os vivos e os mortos podem ir de lá para cá como bem quiserem e, quanto mais penso nisso, mais me parece que nós, que ainda vivemos, somos seres irreais aos olhos dos mortos e visíveis somente de vez em quando, em determinadas condições de luz e atmosfera”.

 

“Para Austerlitz havia momentos sem começo nem fim e que, por outro lado, toda sua vida lhe parecia às vezes um ponto cego sem duração”, comenta o narrador sem nome, que pode ser visto como um alter-ego do personagem-título tamanho seu senso de não-pertencer e a melancolia que o domina. Mas em outros momentos, ele é o próprio leitor, solitário em sua tarefa de ouvir passivamente a história de Austerlitz. Essa questão de quem conta a história, quem ouve o protagonista é um detalhe. Pois a força do romance vem do seu apelo emocional – um homem em busca de sua identidade. Uma jornada tão singular quanto universal.

LEAF STORM: Gabo is great from the beginning

‘Leaf Storm’ is known as the first novella published by Gabriel García Márquez. And from this debut is possible to see how big he would become one day. This book tells a very simple story that acquires multiple levels as it is told.

After the death of an infamous doctor of Macondo his only friends, this friend’s daughter and her son gather to the funerals. The dead man is known as the devil and everyone hates him. His death made the city very happy. As the story is unfolded, we learn why he’s so hated and how come the threesome ended up there to mourn him.

Using multiple points of views, Gabo gives the three protagonists chances to speak to themselves and we can find out how dreadful is to each of one be there. The writer is able to switch the point of view, and also the language –after all, a little boy does not speak as an old man. This is one of the remarkable qualities of this wonderful novella.

This is the very first time that the imaginary place Macondo appears in Gabo’s story and it became a seminal place of his stories –among them the masterpiece ‘A Hundred years of solitude’.

PRIDE AND PREJUDICE: Fear and desire according to Jane Austen

Written in the early XVIII Century, “Pride and Prejudice” is Jane Austen’s most popular and loved novel – but not really her best. One of the first works she wrote, the novel is sometimes a little undercooked compared to her most complex works, like “Emma” and “Persuasion”, however, it is still a joy to read. In this book, she created her most famous romantic hero in Mr Darcy, an unforgettable stubborn who makes a perfect match to Lizzie Bennet. They were meant for each other.

The only problem is that they haven’t figured it our. On the other hand, any reader can realize it from the first moment the couple meet. In other words, we do know how the book ends, so why do so many people keep reading, and rereading this novel? One reason is that Austen has created some very believable characters – and also very endearing. That’s because they are very human. Lizzie and Mr Darcy have very wrong first impressions of each other when they met and that’s why it takes so long for accepting their mutual love.

In this sense, “Pride and Prejudice” is a story about overcoming our prides and our prejudices acquire in the first impression, and changing one’s mind. Both Lizzie and Mr Darcy realize before the end of the story they were made for each other – but the problem is that their wrong impressions lead them to make choices that become barriers to their love. The path they will have to follow in order to find the fully accomplishment of their mutual feelings is the strongest plot in the novel.

At the same time, the reader is fed with details about class and courtship from the time the book was written. In Jane Austen’s work, her characters are sometimes like small figurines that represent the whole world – or at least England. And the writer does it with charm and style. Her books are a document of a time, tackling its fashions, moral and behavior.

Peguin Classics is probably the best edition, since it has many notes and an extensive introduction, dealing not only with Austen’s works in general, but also with an detailed essay on this book. “Pride and Prejudice” is one of those books that will be read forever, and should be read from people in different time of their lives. We find different approaches, and understanding as we grow older.

PORTA DO SOL: As 1001 noites de um novo tempo

A literatura árabe ainda é um terreno obscuro no Ocidente. Nem autores premiados como Naguib Mahfouz são muito lidos desse lado do mundo. Talvez, a obra mais difundida ainda seja As Mil e Uma Noites. Elias Khoury é um dos autores libaneses mais conhecidos e elogiados da atualidade, e Porta do Sol, lançado no Brasil há pouco, é considerado por muitos sua obra-prima.

 

A relação direta entre o romance de Khoury e o clássico árabe pode ser um bom começo para o tornar mais conhecido no Ocidente. Nos Estados Unidos e na Europa, quando publicado há alguns anos, Porta do Sol arrancou diversos elogios e foi considerado pelo Le Monde Diplomatique o melhor livro daquele ano. A escritora norte-americana Lorraine Adams disse no The New York Times que “existem romances poderosos sobre palestinos escritos por palestinos, mas poucos jogam luz sobre os mitos, lendas e rumores sobre Israel e os árabes com tanto discernimento e compaixão. [Esse] é um romance muito rico e realista, uma verdadeira obra-prima”.

 

Traduzido por Safa A-C Jubran, o livro de Khoury é narrado por um médico que conversa com um amigo moribundo. Ele conta histórias, mitos, lendas e fatos reais, um seguido do outro – um final não é nada mais do que um começo. Assim, a narrativa segue a tradição de Xerazade que tece histórias para sobreviver. Khalil acredita que isso vai manter seu amigo vivo.

 

“Há três meses sinto-me incapaz de me emocionar”, conta-nos o narrador, “apenas este homem suspenso sobre seu leito me faz sentir a tremura das coisas. Há três meses está deitado sobre essa cama de hospital da Galiléia, onde trabalho como médico, ou onde faço de conta que sou médico. Sento-me ao seu lado e tento. Ele está morto ou vivo? Conto-lhe histórias ou escuto?”.

 

A colagem de histórias, que datam de 1948 até o presente, formam um painel vasto da relação entre Palestina e Israel. É aí que conhecemos os personagens interessantes e complexos, envolvendo paixões, medos, sucessos, vinganças e conquistas. 

 

A discussão entre os dois homens no quarto de hospital não só revela sobre essa amizade peculiar, como também sobre as mulheres de suas vidas. Daí emergem momentos e histórias de amor, como a do moribundo Yunes e sua amada Nahilah, que por décadas se encontraram na caverna Bab al-Shams (o termo árabe para porta do sol) onde podiam ter um tempo para eles namorarem e discutirem sobre os filhos.

 

Enquanto no Ocidente o livro foi bem recebido, quando publicado em hebreu Porta do Sol causou polêmica. O jornalista e historiador israelense Tom Segev disse no jornal Ha’aretz que o romance vai além da licença poética de Khoury. Ele alega que “se não há uma verdade [para os incidentes], não é certo fazer uso ficcional deles. Khoury não é conhecido em Israel, e não há motivos para se acreditar nele”.

 

Ao incitar reações tão contundentes como a de Segev, o escritor libanês parece ter conseguido expor o radicalismo de alguns pensadores que negam as conseqüências de suas próprias ideologias. Por isso, além das qualidades literárias, Porta do Sol se torna uma leitura fundamental para os nossos tempos.

LIGHT YEARS: Beneath the shiny surface

Nothing is perfect. A marriage that seems to be unshakable may be just hiding dark cracks beneath a beautifully polished surface. That is one of the things one can learn from James Salter’s classic novel “Light Years”. Originally published in 1975, the book has become a fine example about family dynamics and failed expectations.

Nedra and Vidri form an untouchable couple, parents to two also perfect girls, the four of them lead a dreaming life until reality becomes stronger than appearances. Neither him, nor her is happy person, and the liaison is just kept because it is easier to be together than apart. That is what it seems. They have strong bounds – mostly because of their children. In a tender scene, we see them producing a book about an ell for the children. Nedra thinks the children book that exist are no good. Mother and father are really into completing the task. This is a familiar moment that becomes a remembrance in the far lost past.

As the narratives of “Light Years” moves on, Salter deconstruct the supposed perfect marriage into a group of people falling apart. The parents are so absorbed in their failed relationship that they hardly notice their kids are also a mess – self-destruction runs in the family.

Salter’s language is poetic however direct. The narrative is told in a fractured way, with jump cuts from a time to time. These devices make “Light Years” a sophisticated reading experience. But the best in the novel, the writer’s wise perception of the American marriage. This is a beautiful novel that has an interesting dialogue with Richard Yeats’ “Revolutionary Road“.

DESPERATE CHARACTERS: The cat effect

Once upon a time there was a Brooklyn middle-aged couple whose marital life was that great, but they could handle that. But on a weekend everything happened. The husband was dumped by his business partner, husband and wife bring up all the past resentment and, on the top of that, she is bitten by a stray cat. This is just the beginning.

The bite is the starter – or the materialization – of a bigger crisis. The time is the late 1960s when the world was changing very fast, but the Bentwoods weren’t ready for that apparently. They are swallowed up by the new world where their way of life seems to have no place anymore.

Published in the 1970s, “Desperate Characters” is a short novel with pathos and comic moments. In a few pages Fox is able to capture a moment that influences both historical and personal levels. There is a strong narrative populated by complex characters. Everything is very subtle and with nuance.