Arquivo do mês: janeiro 2008

EU HEI-DE AMAR UMA PEDRA: Polifonia do silêncio

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Se calhar toda a arte devia tender para o silêncio. Quanto mais silêncio houver num livro, melhor ele é. Porque nos permite escrever o livro melhor, como leitor”, disse o escritor português António Lobo Antunes em uma entrevista à época do lançamento oficial do seu último livro, Eu hei-de Amar uma Pedra, em 2004, que acaba de ganhar uma edição no Brasil. Esse romance é composto de palavras e silêncios – mais metafóricos do que reais, e ainda assim, extremamente valiosos – bem ao gosto do seu autor.

O livro é narrado por diversos personagens que ganham voz sem muito avisar. Quando se percebe, a história é outra, filtrada pela sensibilidade de outro. Essa é uma obra mais de impressões do que fatos ou acontecimentos que movam uma narrativa. Assim, o leitor se depara com um grande desafio: entrar num mundo que não é o dele e conseguir sobreviver lá. Quando Boa Tarde às Coisas Aqui Em Baixo, livro anterior de Antunes, foi lançado em Portugal, em 2003, a obra vinha acompanhada de um pequeno ‘manual de instruções’, no qual o escritor dava conselhos. Um deles dizia que seus livros não são para serem lidos, mas apanhados, como se apanha uma doença. Outro alerta: pouco importa a história, mas sim os personagens e o que eles sentem.

heideamarumapedra-livro.jpgEu hei-de Amar uma Pedra é um romance sobre o amor. Começa com um homem revisitando fotografias de sua vida e deixando o fluxo da memória tomar conta. À medida em que avança, chega à lembrança de um amor perdido, quando a mulher foi dada como morta. Anos mais tarde, se reencontram por acaso. Ele fez uma vida, mulher e filhas, sem que essa amada fizesse parte. Agora, os dois têm o tempo perdido para recuperar e passam a se encontrar semanalmente.

Mas esse não é o único fio condutor, afinal os narradores são vários. Há as filhas e a mulher deste personagem – cada uma com suas aflições. Há também a amante, e seu psiquiatra tentando decifrá-la. Histórias de amores, traições, perdas e desencontros estão presentes na família do protagonista.

Lobo Antunes é um dos mais importantes escritores de língua portuguesa em atividade. O Nobel de Literatura para Saramago em 1998 foi motivo de polêmica, pois muitos acreditavam que os louros eram mais cabíveis ao autor de Os Cus de Judas, seu livro mais conhecido e lido. Tempos depois, o escritor desconversa quando perguntado sobre a rixa entre os dois. “Não quero nem tenho tempo para odiar seja quem for.”

A verdade é que tanto Antunes quanto Saramago são donos de estilos próprios e desafiadores – em especial para os leitores. Em Eu hei-de Amar uma Pedra, o escritor seduz [tal qual um encantador de serpentes] seus leitores com sua prosa poética aliada a uma concepção de tempo diferenciada, fruto de seus anos como médico militar na guerra de Angola. Assim, o livro combina tanto poesia, narrativa e ensaio. A não-dedicatória do livro [“Nesta página estava uma dedicatória aos meus pais. Ainda está.”] dá uma pista sutil: esse é um romance sobre os amores difíceis. Consta que Lobo Antunes teve uma relação complicada com os pais, que nunca o leram, não o entendiam.

O leitor vai se deparando com descrições visuais envolvidas numa poesia que faz da leitura um fluxo contínuo – mesmo quando não estamos entendendo muito bem o que o escritor quer dizer naquele momento. Descreve um negativo de fotografia como “(…) fantasmas, não pessoas, com o branco e o preto ao contrário, feições pretas, roupas de aparição que flutuavam”. São detalhes que vão formando uma imagem, dando forma ao abstrato – o sentimento – do qual o livro trata: o amor, em diversos níveis.

O título do livro vem de um canto popular português, cujo segundo verso é “beijar o teu coração”. Com Eu hei-de Amar uma Pedra Lobo Antunes fala das impossibilidades, do concreto [pedra] em diálogo e disputa com o abstrato [amor], das possibilidades de silêncio – tão importantes para ele – e das impossibilidades da comunicação. Ele mostra que o contrário de esquecer nem sempre é a recordar – mas também pode ser recuperar.

 

Originalmente publicado em www.RevistaParadoxo.com em 14/08/2007

THE ROAD: A “Road” that leads somewhere important to go

the-road.jpgThe scenario is desolating. A vast landscape with no human beings but a father and a son. Earth is not the same anymore. Something has destroyed the world as we know it. These two people try their best to survive, but survival is something bigger than them – bigger than anyone else. This is the place where Cormac McCarthy’s Pulitzer Prize Winner “The Road” is set. A world where we’d like to visit only in fiction.

But what a road this is. We don’t know where this path leads to, but any reader can notice that this is a metaphorical device. This road is much more than a place to walk over. This is life, after all. McCarthy touches a exposed never about the contemporary world when he writes about a imaginary future – that can even be real in a couple of decades, we never know.

The writer is not really interested in what has changed the world and life into that, but how people cope with this transformation. Some characters can’t even deal with this new present. The third part of this family is one of those who couldn’t accept the new world.

McCarthy creates a journey paved with metaphors and symbols that may be linked to the past or future, or something else. On the other hand, the writer doesn’t abandon the West – mythical environment where is set most of his novels, such as his famous Border Trilogy. There is a concept very clear about characters in “The Road” that comes from that place: the good guys and the bad guys. But, on the other hand, here they are never as defined as they usually are in the Westerner. They can be bad or good depending on how you look at them.

McCarthy is certainly one of the most accomplished American writers working today. His latest novel proves that he is not seeking for catharsis or comfort whatsoever with his work. He wants to raise questions, to disturb us, readers, to remove usfrom our alienation. And in the end of the reading we certainly are fully awaken.

Originalmente publicado em www.Amazon.com em 30/04/2007

PERSÉPOLIS: Uma vida em preto e branco

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Marjane Satrapi nasceu no Irã nos anos 1960. Sua autobiografia poderia ser um vale de lágrimas – incluindo opressão política, perda da liberdade, exílio na adolescência e até mesmo morar na rua. Mas ela vê sua história por outro ângulo, na historinha em quadrinhos Persépolis – que agora é publicada no Brasil em volume único –, uma combinação de humor com indignação política e questionamentos emocionais.

 

Originalmente lançado no Brasil em quatro volumes – seguindo a edição francesa – em 2003, a publicação da história em quadrinhos em volume único é uma possibilidade de [re]descobrir esse grande trabalho – que ganhou diversos prêmios, como o de melhor HQ na Feira de Frankfurt. Persépolis também foi adaptado para o cinema [co-dirigido pela autora e por Vincent Paronnaud]. Além de premiado no Festival de Cannes, o longa, que foi escolhido para representar a França na disputa por uma vaga no Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, estréia no Brasil no primeiro semestre do ano que vem.

 

Logo nas primeiras páginas a escritora e ilustradora mostra o tom que vai acompanhar o leitor por todo o livro: uma mistura entre política e humor – um humor agridoce muitas vezes. A primeira ilustração mostra a pequena Marjane com 10 anos, em meio a Revolução Islâmica, emburrada, com a cabeça coberta com um véu, que logo se tornou obrigatório na escola, lhe trazendo alguns problemas graças à sua rebeldia.

 

Filha de pais progressistas, Marjane cresceu com uma liberdade incomum para as garotas de seu país. Sua mãe foi uma das mulheres que saiu às ruas para protestar contra o uso do véu – o pai a apoiava nisso.

 

Esse é apenas um dos episódios dessa vida narrados em Persépolis. O livro acompanha Marjane ao longo dos anos, seus problemas com o regime e seu crescimento pessoal – enfrentando dilemas de ser uma exilada num país estranho, as dúvidas freqüentes da adolescência entre outras coisas.

 

A história em quadrinho é claramente divida em duas partes. Na primeira, acompanhamos a visão de uma criança para um mundo em constante transformação. É um tom lúdico de quem vê, mas não entende, e, assim, as coisas mais escabrosas tomam contornos menos assustadores. A guerra, aos poucos, vai se tornando menos atroz – é a capacidade que o ser humano tem de se adaptar [e, às vezes, aceitar] a tudo.

 

Aos poucos, a pequena Marjane ganha mais consciência política – nesse processo, a figura de um tio ativista foi muito importante para ela. Aliás, ela se torna tão politizada, que viver no Irã passa ser um perigo, e os pais decidem enviá-la para Viena.

 

Irã em Viena

 

A segunda parte de Persépolis acompanha a protagonista vivendo na Áustria – onde a vida também não é tão fácil. Aqui, a narrativa ganha contornos ainda mais pessoais. O livro passa a falar de Marjane crescendo e tentando entender o mundo – em especial seu mundo interior. É um ato de coragem da autora se abrir de tal forma publicamente – não apenas nessa segunda parte, mas ao longo de toda a história em quadrinhos.

 

Em várias entrevistas, Marjane confessou que seus pais só ficaram sabendo de tudo o que ela passou em Viena quando leram o livro. São nessa parte que estão os momentos mais sentimentais e emocionantes de Persépolis.

 

Ela acabou voltando para o seu país natal, onde se formou em Belas Artes e, mais tarde, se mudou [por opção própria] para a França, onde até hoje trabalha como ilustradora. Sua autobiografia é uma das mais originais dos últimos tempos. Especialmente porque ela conta sua história usando não apenas palavras, mas também desenhos próprios.

 

Os traços da autora nesse livro são de uma simplicidade labutada – daquele tipo que parece fácil, mas só se alcança à custa de muito esforço. Por isso mesmo, há um equilíbrio entre discurso e forma – o livro não rouba as atenções para nenhum dos dois, nem as palavras nem as ilustrações.

 

Ao lado de livros como Lendo Lolita no Teerã, no qual uma professora universitária conta a sua experiência de ensinar literatura ocidental para suas alunas, Persépolis é uma janela para um mundo mal compreendido pelo restante do planeta – e, por isso mesmo, muitas vezes mal visto. No livro, a vida de Marjane é contada em preto e branco – mas com tantas aventuras, indagações, tristezas e alegrias, sabemos que é um preto e branco colorido.

 

Originalmente publicado em http://www.RevistaParadoxo.com , em 18/12/2007