AUSTERLITZ: Quando a intersecção entre as lembranças e a escrita é iluminada por fotografias

Em uma de suas últimas entrevistas, publicada postumamente no jornal britânico “The Guardian” em dezembro de 2001, o escritor alemão W. G. Sebald diz que a formação psicológica de uma pessoa ‘é tal que você é inclinado a olhar para trás por cima de seus ombros. Memória, mesmo que você a reprima, voltará e dará forma à sua vida. Sem memórias não haveria nenhuma escrita’. Em seu último romance, “Austerlitz”, o autor explora exatamente essa intersecção: quando a escrita busca na memória – de quem escreve e de quem lê – os fragmentos para se compor uma narrativa.

 

“Austerlitz” pode ser visto como uma combinação entre filme “Morangos Silvestres”, de Ingmar Bergman, e “Em Busca do Tempo Perdido”, de Proust. Detalhes são o estopim para uma enxurrada de lembranças do personagem-título. Mas não apenas isso, este é também um romance sobre a busca de uma identidade. O protagonista foi mandado para Inglaterra pelos pais, quando a Tchecoslováquia foi invadida por alemães quando ele tinha apenas 4 anos.

 

Ele cresceu como Dafydd Elias, pensando ser filho de um pastor protestante no País de Gales. Mais tarde, porém, descobre que seu nome é Jacques Austerlitz. Na escola, dizem que ele terá de usar esse nome em suas provas – mas os colegas não precisam saber, e os professores mesmo sabendo continuam a o chamar pelo nome pelo qual era conhecido. É uma identidade truncada, na qual um nome pode ter um peso maior do que o presente do personagem, por isso mesmo é importante a busca pela elucidação do passado – não esquecido, mas perdido no fundo da mente, e daí a importância das memórias, até aquelas das quais não temos ciência.

 

Sebald nasceu na Alemanha em 1944, e lecionou na Inglaterra até os anos de 1970 até 2001, quando sofreu um acidente de carro fatal, que acabou com uma das carreiras literárias mais promissoras dos últimos anos. “Austerlitz” havia sido publicado em inglês há poucos meses, e já recebia louros e o rótulo de obra-prima desde seu lançamento em alemão também em 2001. E outros grandes livros ter vindo.

 

Os livros de Sebald são uma combinação entre ficção, reconstituição histórica, reportagem e fotografias. Na mesma entrevista ao jornal inglês, ele disse que sempre se ‘interessou por fotografias, colecionando-as não sistematicamente, mas por acaso. Elas se perdem, e depois reaparecem’. Em “Austerlitz”, uma passagem, porém, parece dar uma explicação mais poética sobre o fascínio que as imagens impressas exerciam sobre o escritor. ‘No trabalho de fotógrafo, sempre me encantou o instante em que as sombras da realidade parecem surgir do nada sobre o papel em exposição, tal como recordações, disse Austerlitz, que nos ocorrem no meio da noite e que tornam a escurecer rapidamente caso se tente agarrá-las, à maneira de uma prova fotográfica deixada muito tempo no banho de revelação’.

 

É fascinante a forma como fotografias em preto-e-branco são utilizadas. Num primeiro momento, parecem surgir do nada como um respiro em meio aos parágrafos que podem durar centenas de páginas, já que não têm nenhuma legenda, apenas uma relação – nem sempre muito explícita – com o texto. Tentar decifrar esse diálogo – entre palavra e imagem – é um dos prazeres da leitura de Sebald.

 

Essas são imagens que transitam entre o bizarro ao poético – para algumas delas essa linha é tão tênue que é impossível classificar. Duas, por exemplo, mostram detalhes do cemitério de Tower Hamlets. Numa delas vê-se um anjo depredado sobre um túmulo e lê-se a inscrição “Until the day breaks and the shadows flee away” [“Até que o dia nasça e as sobras fujam”]. 

 

Mas esse pode ser  o prazer mais primário de Sebald, porque a leitura de seus romances vai acumulando camadas de compreensão. Os vivos e os mortos dialogam numa língua incompreensível às vezes, e deste espetáculo somos espectadores – não necessariamente passivos. “ Não me parece, disse Austerlitz, que compreendemos as leis que governam o retorno do passado, mas sinto cada vez mais como se o tempo não existisse em absoluto, somente diversos espaços que imbricam segundo uma estereometria superior, entre os quais os vivos e os mortos podem ir de lá para cá como bem quiserem e, quanto mais penso nisso, mais me parece que nós, que ainda vivemos, somos seres irreais aos olhos dos mortos e visíveis somente de vez em quando, em determinadas condições de luz e atmosfera”.

 

“Para Austerlitz havia momentos sem começo nem fim e que, por outro lado, toda sua vida lhe parecia às vezes um ponto cego sem duração”, comenta o narrador sem nome, que pode ser visto como um alter-ego do personagem-título tamanho seu senso de não-pertencer e a melancolia que o domina. Mas em outros momentos, ele é o próprio leitor, solitário em sua tarefa de ouvir passivamente a história de Austerlitz. Essa questão de quem conta a história, quem ouve o protagonista é um detalhe. Pois a força do romance vem do seu apelo emocional – um homem em busca de sua identidade. Uma jornada tão singular quanto universal.

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