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LEAF STORM: Gabo is great from the beginning

‘Leaf Storm’ is known as the first novella published by Gabriel García Márquez. And from this debut is possible to see how big he would become one day. This book tells a very simple story that acquires multiple levels as it is told.

After the death of an infamous doctor of Macondo his only friends, this friend’s daughter and her son gather to the funerals. The dead man is known as the devil and everyone hates him. His death made the city very happy. As the story is unfolded, we learn why he’s so hated and how come the threesome ended up there to mourn him.

Using multiple points of views, Gabo gives the three protagonists chances to speak to themselves and we can find out how dreadful is to each of one be there. The writer is able to switch the point of view, and also the language –after all, a little boy does not speak as an old man. This is one of the remarkable qualities of this wonderful novella.

This is the very first time that the imaginary place Macondo appears in Gabo’s story and it became a seminal place of his stories –among them the masterpiece ‘A Hundred years of solitude’.

NINGUÉM NADA NUNCA: Assim como era no princípio e sempre

saer.jpg“Não há no princípio nada. Nada”, começa o argentino Juan José Saer, em seu “Ninguém Nada Nunca”. Essa frase voltará mais algumas vezes ao longo do romance. Quase sempre ligada ao ‘rio liso, dourado’, que muitas vezes parece exercer uma força sobrenatural sobre os personagens.

Esse deve ser um dos romances mais sensoriais já escritos. Saer lida com os cinco sentidos, criando assim imagens que transitam entre o palpável e o onírico, beirando delírios visuais, tácteis, sonoros, auditivos e de paladar. Fora tudo isso, há sinestesias complexas, que causam um outro efeito no leitor. “Os dedos tocam, no máximo, o vidro polido sem saber de antemão que estava ali e recebem, em vez da rugosidade esperada, uma lisura insípida, uniforme. O cheiro do café que preparo, sem pressa, na cozinha, me tira, no início, desse delírio surdo, mas também, depois de uns minutos, se assenta e perde a força. Os gritos e as vozes dos banhistas, que chegam intermitentes, não modificam nem sequer por um instante, nem uma única vez, nada de nada”

A sexualidade de um casal de personagens também é responsável por momentos memoráveis de “Ninguém Nada Nunca”. São dois amantes ilícitos cujos corpos se entrelaçam sob o calor de um fevereiro irreal, como define o narrador.

A trama que conduz a narrativa tem a ver com um assassinato misterioso de cavalos da região. A incapacidade da resolução dos crimes em série parece abalar severamente os nervos dos personagens. Numa narrativa em espiral, Saer não está preocupado em seguir as regras de gênero, mas em romper com parâmetros estabelecidos. É um romance de suspense – mas longe do ordinário de desvendar que o culpado e o porquê. Porém, mas próximo de lidar com a relação entre humanos e a natureza – essa, uma força com a qual não se deve mexer.

Essa visão que Saer tem de seus personagens e da Mãe Natureza o aproxima do cineasta norte-americano Terrence Mallick (“Mundo Novo”, “Além da Linha Vermelha”, “Terra de Ninguém”). O rio, tantas vezes descrito ao longo de “Ninguém Nada Nunca”, ganha mais status do que alguns personagens – tamanha a sua força evocativa. Já os animais são mais sensíveis do que os humanos. “E as pessoas pareciam não sabe se dar conta de que a causa de tudo isso eram os crimes e que os cavalos sentiam no ar que algo era tramado na escuridão contra eles.”

Numa narrativa que beira romper a fronteira com o realismo e a magia, o escritor nos coloca numa posição privilegiada, mais cientes do que os personagens, mas quando nos achamos prontos para dar o bote, ele nos mostra que quem manda é ele. “É que cada um (…) busca a seu modo, e encontra,  uma coisa determinada que impregna em seguida com a sua própria magia. Você não acha?”

O senhor não poderia estar mais certo, Sr. Saer.

CORREIO DO TEMPO: Das solidões – as reais e as imaginárias

correio-do-tempo.jpgSe fosse para definir a coletânea de contos Correio do Tempo, do uruguaio Mario Benedetti, em uma palavra, o termo seria “solidão”. As histórias do volume são protagonizadas por personagens que estão sozinhos – uns por opção, outros por conta das circunstâncias.  

Aqueles que se predispuseram a estar sozinhos são os mais felizes – ou melhor, os menos infelizes, porque ninguém experimenta a felicidade plena. Nem os laços familiares são capazes de garantir a ausência da solidão na vida de uma pessoa. As famílias expostas nesses contos estão fraturadas. São compostas por membros ensimesmados que colocam à prova a ligação sanguínea que os une. 

Num dos primeiros contos, um pai divorciado pega o filho à saída da escola para passarem o final de semana juntos. Segue o diálogo: 

— E sua mãe, como está?
— Sozinha. Ela está sozinha.
— Bom, sozinha ela não está. Ela está com você, não é?
— É, claro.

Porém, duas páginas mais tarde, ao final do conto, o garoto irá travar outro diálogo bem parecido como este, mas em outras circunstâncias, o que nos faz pensar na veracidade das duas afirmações que expõe. A mãe está mesmo sozinha? Ele realmente é uma companhia para ela? Em cerca de quatro páginas, Benedetti é capaz de condensar uma relação familiar de anos, deixando claro ao leitor o que pode ter sido o motivo do fim do casamento. 

Em outros contos, a ditadura no Uruguai [1973-1985] é o estopim. Aliás, as melhores narrativas desta coletânea, publicada em 1999 e só agora traduzida no Brasil, têm o regime militar como pano-de-fundo. Em “Ausências” e “Com os golfinhos”, o autor gradativamente revela seus personagens, contextos e dimensões. O segundo conto, por sinal curto, cresce à medida em que descobrimos porque a narradora escreve uma carta. 

A segunda parte do livro, que tem o mesmo nome da coletânea, é composta apenas de epístolas. Como epígrafe, Benedetti cita Cícero – “Uma carta não enrubesce”. São narradores que não têm chance ou não querem conversar ao vivo com outras pessoas, e por isso, optam por escrever. O que há de mais brilhante nesses contos, porém, não é apenas aquilo que está escrito, que está ao alcance da leitura, mas como o autor criou dada circunstância para cada texto. Apesar de conhecermos tão pouco esses personagens, somos capazes de compreender suas vidas dentro de um contexto maior. 

Benedetti não é um escritor propício a muitas explicações ou mesmo malabarismos literários. Sua força está na condução das narrativas, em geral, curtas. O romance mais conhecido, A Trégua, não é muito grosso. Para o leitor, o que atrai na prosa desse uruguaio é a cumplicidade. Ele confia na inteligência daqueles que o lêem e sabe que seus interlocutores são capazes de chegar a conclusões sozinhos. 

Nenhum homem é uma ilha, já disseram. Mas Benedetti prova que a solidão, às vezes, é uma opção momentânea e reconfortante. É o momento de isolação, de introspecção e, possivelmente, de auto-descoberta. São personagens mergulhados em si mesmos, ora passeando no paraíso, ora no inferno.

Originalmente publicado em www.RevistaParadoxo.com em 10/02/2008

CONSPIRAÇÃO DE NUVENS: O lugar onde a alma habita

lygiatelles.jpg 

“A casa da alma é a memória, escreveu Santo Agostinho”, cita Lygia Fagundes Telles em um dos textos de Conspiração de Nuvens. Levando-se em conta essa consideração do filósofo, LFT abriu as portas de seu palácio há alguns anos para dividir com seus leitores suas memórias em suas obras mais recentes, como aqui, em Durante Aquele Estranho Chá [2002] e em Invenção e Memória [2000].  

Que Lygia Fagundes Telles é um titã da literatura em língua portuguesa, não há mais nenhuma dúvida. Hoje, ela é um dos maiores nomes entre os escritores do País. Como se ela precisasse de algum aval – ou os seus leitores de algum incentivo –, na orelha do livro há citações de intelectuais como José Saramago [“…páginas tantas vezes soberbas”] e Antonio Candido [“…sempre teve o alto mérito de obter, no romance e no conto, a limpidez adequada a uma visão que penetra e revela”]. Mas o que conta realmente são as palavras de LFT, que vai, em um tom às vezes nostálgico dividindo com seus leitores suas alegrias e aflições. 

Àqueles que buscam traços da vida da escritora e o reflexo destes em sua obra, Conspiração de Nuvens está impregnado disso. Há em todos os momentos, seja quando fale de si mesma ou dos outros, uma delicadeza típica da obra da autora. Mas não é de se esperar que ela ‘carregue’ na doçura, pois o cruel e o belo podem andar de mãos dadas e nos surpreender. “Ai! Vida que acaba sendo pior do que a morte, uma vingança a longo prazo”, lamenta a escritora em um texto sobre um amigo que teve uma decepção amorosa.

O novelo da memória vai sendo desenrolado em uma ordem quase aleatória com os textos. Pai, mãe, irmãos, amigos entram em cena, interpretam seus papéis e voltam para o baú das recordações. Mas o que é real de verdade, aquilo que aconteceu como relatado? “Espero que na viragem da minha ficção você encontre com mais nitidez do que nas informações que veio buscar…”, alerta a um rapaz interessado em escrever a biografia de LFT. Isso não deixa de ser um conselho aos seus leitores [seriam eles esse rapaz?]. Busque na ficção aquilo que julgue como real. 

Nesta nova obra de Lygia, não há, em momento algum, hesitação em se expor, tanto como artista, quanto como ser humano. Em um dos textos, ela relata debates que teve com leitores, e como eles parecem saber mais sobre seus personagens e o destino deles do que ela. Há também homenagens a escritores que ela admira e a influenciaram, como Machado de Assis e Álvares de Azevedo. 

Os verbos relacionados à memória aparecem de vez em quando só para nos lembrar [olha a ironia] de que a leitura pode ser mesmo real. São fragmentos de uma vida de 84 anos que vão se formando e se conectando. Da infância no interior fica-se sabendo, entre outras coisas, de uma tia-avó que morreu virgem, embora tenha amado um homem chamado Paixão, ou algumas estripulias da infância. 

Da Lygia jovem, o leitor se depara com aquela que foi uma atriz-amadora e uma jogadora de vôlei. Mas são as lembranças da vida adulta que tocam mais fundo o leitor, quando combina o lírico com o assustador. Um dos textos descreve o encontro com um cão de rua em uma noite fria. O leitor fica tão dividido quanto a Lygia-personagem sobre o que fazer com aquele animal.

As lembranças têm peso relativo na vida das pessoas? É possível que sim. Há um texto, esse o mais emocionante, e, certamente, o mais emocionado em Conspiração de Nuvens. O título, já diz muito: ‘Paulo Emílio’. É nessa crônica sobre Paulo Emílio Salles Gomes, com quem foi casada de 1963 até a sua morte em 1977, que LFT cita Santo Agostinho. Em menos de dez páginas, a autora combina memórias com fatos e informações. O curioso é que não se encontra nesse texto uma catarse, o que há são as palavras de uma mulher ainda apaixonada contando a seus amigos como era viver ao lado do grande amor de sua vida.  

Em uma carreira de mais de 50 anos e quase 20 livros publicados, Lygia ergueu um verdadeiro palácio habitado por personagens, amigos, leitores e, seguindo as palavras de Santo Agostinho, sua própria alma. Seu leitor pode – e deve – fazer visitas periódicas a essa morada, pois lá sempre encontrará uma nova luz sobre a condição humana.  

“Daqui a 100 anos, se alguém ainda se lembrar dessa autora, não irá criar trilhas em torno da minha existência?”, divaga. Realmente não será necessário criar trilhas. Os caminhos já estão demarcados.

Originalmente publicado em www.RevistaParadoxo.com em 18/09/2007

SÓ PARA FUMANTES: Pequenas frustrações

ribeyro.jpgExiste uma sensação de frustração em cada conto da coletânea Só Para Fumantes, do peruano Julio Ramón Ribeyro. Mas isso não por parte do leitor – que tem tudo para ficar bem satisfeito a cada página – mas, sim, pelos personagens, cujos sonhos e anseios vão sendo consumidos por pequenas contrariedades até o momento em que se tornam inalcançáveis. 

O livro é uma coletânea de 13 contos escritos entre 1955 e 1992, dois anos antes da morte do escritor. Foram selecionados e traduzidos por Laura Janina Hossiason, que também assina um posfácio no qual afirma que os contos são “uma amostra breve, mas bastante significativa, da vasta produção deste mestre da prosa latino-americana.”

Rybeiro pertence à chamada geração de 1950. Ao lado de nomes como Luis Loayza, Enrique Congrains, que renovou a literatura em seu país, ele é um dos mais importantes do Peru. Sua prosa, porém, não se inscreve facilmente em nenhuma tradição, por suas características únicas: uma combinação entre um lirismo poético e os dois pés fincados no chão do realismo. Assim, nos deparamos com personagens como o protagonista de Silvio no Roseiral, que depois de herdar ‘a fazenda mais cobiçada do Vale de Tarma’, enfrenta várias contrariedades – inclusive amorosas.

Em seus contos, Ribeyro encontra diferentes formas de explorar o drama humano por meio de personagens cujas expectativas são quebradas por outras pessoas, por eles mesmos ou por uma força do destino. Alguns deles sonham, e quando finalmente conquistam aquilo que desejam, não se sentem realizados. É como se depois de concluída a busca, não houvesse mais razão para viver, e por isso seja melhor nunca encontrar aquilo que se anseia. 

No decorrer das narrativas, o escritor imprime dimensões épicas a pequenos momentos da vida de gente comum. No conto que empresta o título ao livro, o narrador começa dizendo sempre ter sido um fumante precoce, e que a partir de certo momento, a história dele se confunde com a história de seus cigarros.  

Seguindo a leitura, acompanhamos, então, suas tentativas [em vão] de abandonar o fumo e a sua relação com seu vício – tudo isso espelhando o momento histórico. Ou seja, algo maior que a individualidade dele. Já não se sabe mais quem é o criador e quem é a criatura. Afinal, Ribeyro foi um fumante inveterado. 

No início de sua carreira, o escritor peruano teve influências do neo-realismo do cinema italiano – embora essas tintas sempre estejam presentes em sua obra. Sua visão do mundo, desenvolvimento de narrativa e personagens também remetem a Tchekhov e Maupassant.  Em poucas páginas, Ribeyro se mostra capaz de criar uma grande narrativa deslocando foco entre personagem, cenário e contexto histórico – sem nunca abrir mão daquilo que há de mais humano em tudo isso. 

“O leitor tem diante de si os contos de um narrador excepcional”, observa o escritor Alfredo Bryce Echenique, no prefácio desta edição, “que, ao longo de quatro décadas, se entregou à literatura sem alardes, afastado das modas e de qualquer experimentalismo em voga”.

Originalmente publicado em www.RevistaParadoxo.com. em 06/11/07